‘Rainha[(s)]‘ – Duelo titânico de rainhas
texto de Clóvis Massa
Leitor Crítico
O drama romântico do qual faz parte Maria Stuart, de Schiller, subverteu as regras até então defendidas pelas formas neoclássicas, em proveito da liberdade artística. Antes do surgimento do teatro romântico, não havia lugar para a complexa retratação do humano: somente as personagens que se assemelhavam aos deuses tinham lugar nas narrativas clássicas. Não que antes esse elemento não tenha existido: desde a Grécia antiga, o grotesco aparecia, mas quase sempre como algo de subversivo em relação à ordem das coisas, ordem essa que mais tarde devia retornar à pólis. Com o romantismo, deu-se a união da tragédia e da comédia, em composição dialética, sem se basear em regras dramatúrgicas. Quando o jogo do que há de mais belo e do que há de mais desqualificado na manifestação do humano se opôs às formas conservadoras, enfim estava legitimado o grotesco.
A expressão surgiu no século catorze, quando por acaso foram descobertos, em Roma, corredores e salões soterrados em que foi encontrada uma espécie de pintura ornamental, com imagens insólitas que continham seres metade gente e metade animal. A palavra grotesco logo passou a ser utilizada no meio artístico para explicar o caráter extravagante das formas em questão. Rainhas [(s)] revisita o drama de Schiller, aproveita o conflito de Elisabeth e Maria Stuart como mola propulsora para expor a rivalidade de duas atrizes em seu ofício, resguardando o que há de característico na origem do termo.
Se o papel do crítico é fazer o mapeamento dos jogos cênicos, a montagem dirigida por Cibele Forjaz propicia ao estudioso a descoberta de variadas fontes, como ocorreu com os intelectuais que tentavam decifrar o puzzle dos escombros romanos. Verdadeira descida dantesca, em que um novo conhecimento se faz a partir do estranho, é impossível para quem tem a mínima aproximação com o trabalho das atrizes ou da diretora não fazer relação com encenações anteriores.
Ao espetáculo, a história de Schiller só interessa como desconstrução para se reestabelecer em plena arena, no jogo da atuação. Assim, o espetáculo torna-se um espelho de concentração. Espelho que não reflete uma imagem igual ao que há na vida, mas uma imagem construída. O conflito entre as duas rainhas importa tanto quanto o embate surgido entre Cacilda Becker e Cleyde Yáconis na montagem do Teatro Brasileiro de Comédia. Como essa, também outras fontes não passam impunes à releitura das microsituações que se instauram: como no filme A Malvada (All About Eve), com Bette Davis, uma jovem atriz se aproxima de uma grande estrela para se tornar famosa; a maneira de falar de Georgette Fadel lembra por vezes a da rainha, mas não a rainha da colega de cena, e sim a de Denise Stoklos, em Mary Stuart; o canto de Isabel Teixeira traz à tona outra Maria, a Bethânia. Teria seu canto algo também de Fafá de Belém ou Ângela RoRo? Como o espetáculo está perpassado dessas fontes, somente um Kasper Hauser teria, se isso fosse possível, uma leitura com impressões puras sobre o trabalho. José Celso Martinez Corrêa também se faz presente nas melodias, no vinho, no próprio jogo das atrizes que se revelam e, quando se espera que se escondam por trás das figuras das rainhas, acabam por se mostrar ainda mais aos espectadores. Os espetáculos anteriores da diretora emergem também em cena, na fita crepe que define o jardim no chão, como em Toda Nudez Será Castigada; na utilização do recurso do acaso, como em Woyseck Desmembrado, na exigência de participação do público, como em Arena conta Danton. A direção de Cibele Forjaz deglute todos esses procedimentos para chegar a um resultado digno das escritas mais românticas, sem perder a marca de seu estilo.
Das impressões mais puras, restam duas ou três, retomadas e refletidas, aqui, de forma alguma pura. A da atriz workaholic, caminhando eufórica em círculos, como formiga atômica, que numa energia incontida acredita que pode anotar o e-mail de todos os presentes e, no momento seguinte, nos surpreende com sua deliciosa pausa. Ou a da rainha que arranca seus cabelos, num golpe teatral de beleza impactante. Ou, ainda, a da rainha com seu corpo esquartejado, caído na lona da arena, tal qual corpo-sem-órgãos de Artaud, que precisa encontrar noutro órgão a função daquele que foi suprimido do corpo. Corpo que vai ser substituído pelo da outra rainha, trocado no decorrer desse jogo de poderes ou de futilidades. Como diria Maiakóvski, Cibele, Georgette e Isabel são rainhas que nos fazem, grotescamente, ser todo coração, já que a anatomia ficou louca. O lado grotesco revela a face mais mesquinha do espírito humano, ao mesmo tempo em que a face sublime dessas magníficas “rainhas” é contemplada com prazer. Ou seria o contrário: nos extasiamos com o grotesco e permitimos ao mesmo tempo que se revele o sublime da condição humana? A partir da representação dos jogos do poder, escancarada com a mesma irregularidade libertária das formas românticas, instaura-se o jogo competitivo das atrizes, o jogo dos contrários que traduz o que foi a obra de Schiller, em sua época, agora em nosso tempo.