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‘Memórias de um Sargento de Milícias’ – É que o malandro agora chacoalha num trem da Central…

24/07/2009

foto de Fabrício Spatti

texto de Kil Abreu
Leitor Crítico

Uma das lições mais profícuas da cena contemporânea é a permissividade em relação ao material que pode servir ao palco. Em um panorama rico em sugestões a “peça” passou a ser apenas mais uma entre várias outras fontes onde o teatro bebe. Por isso não cabe à crítica julgar a escolha enquanto tal. Mas, se não cabe julgar as escolhas é importante pensar em como elas são tratadas e quais são os entornos próprios à criação, porque estes normalmente são assimilados como forma na obra artística.

No caso do espetáculo da Companhia Fábrica de sonhos não há muito para onde correr se nos perguntarmos o que motivaria o grupo a montar este texto de Manoel Antonio de Almeida, tão distante nas referências culturais. Seria o personagem (o malandro) e o espírito da malandragem que, como nos ensina Antonio Candido no seu conhecido ensaio, pela primeira vez aparece formalizado na literatura? Talvez. Mas aqui temos um problema se não quisermos pensar nisto como peça de museu: os nossos malandros são outros porque as relações que marcam a sociabilidade também são outras. Chico Buarque fez uma canção bonita sobre o assunto. Foi procurar o sujeito na Lapa e perdeu a viagem porque esse malandro que nascera no século XIX, quase inofensivo no seu charme matreiro e enganador, esse malandro não existe mais. Ou virou federal, com mandato e gravata, ou “foi encontrado mais furado que Jesus”. Não à toa o bordão cantado nas novelas, “malandro é malandro e mané é mané” só pode ser tomado em sentido irônico. Também não é gratuito que nos chegue como samba de breque, este mesmo uma forma já clássica da música popular, que nos remete a um imaginário outro, que antecede tanto às variações musicais que o samba apresenta hoje quanto ao lugar social para onde o personagem caminhou.

Dado o anacronismo resta considerar o espetáculo em outro contexto, onde ele ganharia mais ossatura. Parto da intuição, pelo que vimos todos, que o projeto da Companhia está em diálogo com aquele nicho das produções dedicadas ao trabalho com escolas e afins. Para além da problemática muitas vezes enfadonha sobre esta área de atuação (a educação), em que estética e didática são chamadas a buscar sintonia, somos levados então a ver a montagem na sua pretensão a alcançar os dois campos, já que olha para o ambiente escolar e mantém apresentações regulares no ambiente teatral propriamente dito, como acontece no FIT.

Sejamos agora mais dialéticos. Se este pressuposto não estiver equivocado a leitura crítica que segue parte primeiro de um lugar deliberadamente conservador, se posto à luz daquela experiência teatral contemporânea lembrada no início. Ela vai reclamar algum retorno razoavelmente dedicado ao texto, este bode de amplas e generosas costas que tem servido para expiar muitas das nossas faltas no cenário atual. Mas digo “deliberado” justamente porque não julgo que esse retorno seja aplicável e necessário a qualquer projeto cênico. Entretanto, neste caso acho que não será demais reclamar um olhar atento nesta direção, a literária mesmo, vista senão como centro ao menos como fonte importante da encenação.

Uma parte da tarefa que o grupo coloca para si é, suponho, manter um diálogo que ilumine a obra, certamente oferecida a estudantes em formação. Sem precisar entrar em detalhes por demais conhecidos a respeito da indigência escolar na área da leitura (estimulada por muitos professores com sua política de resumos) o fundamental é que o espetáculo tenha o poder de provocar a curiosidade para uma volta ao romance, ao invés de simplificá-lo em esquemas redutores que, enfiim, bem ou mal já estão nas tais sinopses.

Para isso seria necessário um plano dramatúrgico mais exigente que o apresentado pelo grupo rio-pretense. Ao se contentar com a narração do andamento da história mais que com as suas características de linguagem esta versão teatral se orienta pela mesma linha de simplificação. É claro que não se advoga aqui a tal fidelidade ao romance – o que de resto seria impossível e infrutífero – mas um plano artístico que, sendo autônomo, não perca de vista a profundidade poética da sua fonte. O que acontece é que em que pese o desempenho à vontade e o talento de um elenco de muitos recursos (especialmente para o improviso e para a caracterização cômica), o espetáculo segue carente de verticalidade, permanecendo refém do esquematismo marcado na redundância entre o narrado e o demonstrado. De outra maneira a variedade excêntrica das soluções – que vai de lembranças a Michael Jackson ao funk carioca -, na tentativa de “atualizar” a obra pouco tem a dizer sobre ela e apenas indica alguma dificuldade para o exercício de síntese e no reconhecimento dos seus pontos angulares. O ritmo desenfreado, tomado como convite para a adesão da platéia, atropela a identificação das peripécias, tão essenciais mas tomadas em cena como mero acidente. Empurrados todos para a frente no mesmo frenesi que conduz a representação do início ao fim, os acontecimentos se igualam em um registro único, preocupado mais em encontrar o efeito cômico (mesmo que este não faça ponte com a situação em jogo) que o sentido de pertinência à ação que segue.

É assim que estas Memórias de um sargento de milícias, entre a missão didática e o chamado à invenção, acaba não agarrando com firmeza suficiente nenhum dos seus propósitos. Mais distante ainda estaria a síntese de uma coisa a outra, em que também caberia um olhar novo sobre a descendência atual do malandro que, como nos lembra o Chico, hoje “mora lá longe e chacoalha num trem da Central”. Diremos pretensiosamente que isso estaria próximo a obra ideal para um grupo que apresentou muitos e importantes recursos, mas que neste trabalho ainda não deu o salto poético que o seu projeto pede.

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